No Rio de Janeiro, diria o viajante bom observador, existem dois tipos principais de racistas, que infernizam a vida cotidiana dos negros e negras, dos indíos e das indias, e, de brancos que tenham trejeitos de negros . Um é o racista cachorro, o outro é o cachorro do racista.
O racista cachorro é difícil de se ver, pois se esconde por trás das grades dos edifícios, dos guichês dos escritórios e das canetas da lei. Já o segundo, o cachorro do racista, está espalhado pela cidade como formiga em bolo de açúcar. Nas portas de lojas, em portarias de edifícios, dentro dos shoppings e supermercados, por trás das roletas dos banco, em tudo quanto é lugar. Mais parecem o big brother a seguir com mil olhos os passos dos menos claros pela cidade afora.
O jornalista Ras Adauto, de Berlim, chamou-me a atenção para um artigo recentemente blogado pelo jornalista Arnaldo Bloch no "Segundo Caderno" do Globo.
É o apartheid chegando ao Brasil de forma escancarada. Empregadas domésticas e babás estão obrigadas a usar uniforme ao adentrarem o recinto do Shopping Fashion Mall em São Conrado.
A promotoria do estado precisa abrir um processo. Que sejam apurados os fatos. Que não fiquem as investigações somente nos paus-mandados. É preciso cortar com a lei, as cabeças pensantes do racismo, da discriminação e do apartheid à carioca, na semana de comemorações do aniversário da cidade. Marcos Romão
A seguir o primoroso artigo do Arnaldo Bloch, que como todo bom branco carioca sensível às discriminações ainda insiste em separar o preconceito racial do social, como se importasse a quem está sendo pisado, a justificativa do racista, tipo, "aí meu irmão tô pisando no seu pé é porque você é pobre, não é porque você é negro não":
Cenas chocantes no Fashion MallE aqui um vídeo documentário da TV Suiça, encontrado pela Mamapress, sobre a África do Sul nos tempos do Apartheid. Infelizmente só em alemão, mas estamos aguardando o patrocínio do Fashion Mall, que demonstrou interesse em pagar a tradução, para que os cariocas aprendam rápido, os novos métodos de segregação.
Será que o classudo Shopping em São Conrado virou um clube racista?
por Arnaldo Bloch
Conversava com o roteirista e diretor
Rafael Dragaud, de “Conexões urbanas”, sobre sua mudança de residência,
de um pequeno apartamento no Leblon, entre a Cruzada São Sebastião e o Jardim
de Alah, para uma casa em São Conrado, nos altos das Canoas, na fronteira também
com uma pequena comunidade. Rafael me contava, horrorizado, as cenas que tem presenciado
no Fashion Mall — shopping que passou a frequentar mais desde que se mudou
— e que o fazem refletir sobre o quanto somos, ainda, escravocratas.
A primeira cena foi de uma moça com biótipo nordestino que passeava com três crianças
de pele bem clara, como seus cabelos e seus olhos. Um segurança negro e alto a abordou, com educação. Numa localização estratégica, Rafael, que tem o hábito de observar, na moita, esses enclaves comportamentais, viu tudo, como um antropólogo.
Percebeu, inclusive, o constrangimento do segurança, de origem humilde, e seu esforço para encontrar um modo de falar que não ofendesse a moça, ao lhe perguntar qual o grau de relação que tinha com aquelas crianças.
Ao confirmar suas suspeitas – a mulher era babá da prole de algum casal que, naquele momento, fazia compras ou trabalhava – o segurança pediu que se encaminhasse para algum misterioso destino, esperou que ela desaparecesse e passou um rádio para assegurar o procedimento. O fato: ela não podia ficar ali sem o uniforme de serviçal.
O Fashion Mall, não é novidade, tornou-se, em certos dias e horários, o shopping das babás uniformizadas conduzindo crianças de classe AAA, acompanhadas ou não dos pais, e carregando também as compras. Há momentos em que poderíamos jurar que estamos no set de “Histórias cruzadas”, o filme da Disney que mostra como eram tratadas as domésticas e babás (normalmente, elas faziam todas as funções) no Sul racista, na transição para a conquista dos direitos civis dos negros.
A diferença é que aqui, como nos ensinara Caetano em “Haiti”, o preto é sinônimo de pobre: pode ser branco, nordestino, caboclo, índio, é tudo preto, tudo preso, e o nosso apartheid hoje é mais social do que racial, embora sua herança seja escravocrata. O Rio de Janeiro, que na Abolição votou 100% contra, é até hoje craque em preconceito social e segregação, como se pode exemplificar na outra cena que Rafael presenciou, ao entrar, com sua mulher, numa sessão de “O espião que sabia demais”.
Numa das fileiras de trás, estava um desses yuppies de cabelinho penteado pro lado, que Rafael reconhecera, na entrada, de uma outra ocasião, quando o mesmo mandara demitir alguém pelo celular, aos gritos, enquanto comprava vinhos numa dessas adegas, e depois pegara a chave com o guardador sem olhá-lo na face.
Pois, o yuppie, com sua turma, tacava a maior zona, falando alto, consultando celular, aquela falta de educação característica de quem tem berço mas não tem caráter. Uma mulher, próxima a eles, em companhia do marido, reclamou.
— Por favor, silêncio! A gente pagou pra assistir ao filme!
O Sr. Riquinho soltou um ganido de gazela:
— Ihhhhh... olha só.... olha a audácia... Pelo jeito, não tem dinheiro pra vir ao cinema, não vem nunca, daí dar tanta importância pra essa merda.
— Que absurdo! Eu ralo o mês inteiro pra ganhar meu dinheiro honesto e ainda tenho
que ouvir isso!
O yuppie se dirigiu à mulher como a um cão.
— Psssssst.... ca-la-da! Ca-la-da!
Foi quando o marido da cidadã resolveu se pronunciar. Levantou-se e se posicionou na direção do ofensor.
— Escuta, você está mesmo mandando a minha mulher calar a boca? Você está mesmo
com disposição de resolver isso comigo fora da sala?
Como qualquer covarde pusilânime, o rico mimado sem classe pôs o rabo entre as pernas e desistiu de confrontar o casal trabalhador (o clichê é consciente e proposital).
O que está por trás da orientação, decerto ilegal, que proíbe babás não uniformizadas de caminhar por um shopping com os filhos de seus patrões?
O que está na cabeça de quem administra o Fashion Mall, que andou perseguindo o filho de criação de Caetano, expulso do local por seguranças, acusado de “atitude suspeita”, talvez pela cor da pele e o trato rasta do cabelo? Não estaria na hora de se cobrar, na Justiça, de acordo com o código penal, a impropriedade desses procedimentos? Ou seriam apenas “atitudes isoladas”?
Os shoppings, para muitos, se tornaram bairros, cidadelas, “comunidades”, e já há
grandes estabelecimentos do gênero em todas as regiões da cidade e do estado.
Há, inclusive, shoppings na Zona Sul onde se nota que a pluralidade é não apenas tolerada, mas desejada, como o Shopping Leblon, que, mesmo tirando onda de chique, tem suas galerias e lojas percorridas por madames e moradores da Cruzada, babás de jeans e empresários, Hells Angels e motoboys, sem que pareçam, uns, se incomodarem com os outros.
Ao contrário, a impressão que se tem é de se estar, do ponto de vista do cosmopolitismo, numa Avenida Copacabana, com todo o respeito e no melhor sentido do endereço. No Rio Sul e no Botafogo Praia Shopping também se respiram esses ares de boa mistura igualitária, mesmo que as carteiras, as contas bancárias e o poder de compra tenham diferenças consideráveis.
Vitrines são para todos e, para os menos abastados, sempre sobra algum fruto do suor para se fazer um agrado, a si ou ao próximo.
O que há com o Fashion Mall para investir nessa abominável vertente de clube segregacionista?
Um bom tema para reflexão (e para providências) na semana em que a cidade faz aniversário."


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